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Eu já sabia…

August 9, 2016

Nos meandros da comunicação e do relacionamento humano, vamos adquirindo experiência, aprendendo a interpretar intenções e reações. E não estou falando dos psicólogos e dos profissionais das ciências humanas somente. Mas de todos nós que, já tendo vivido decepções ou termos sido surpreendidos por alguém (e quem não foi?), nos apossamos de uma tal experiência em prever comportamentos e principalmente interpretar intenções.

 

 

 

Lembrando que nosso instinto natural é de lutar ou fugir das possíveis ameaças, isto se torna compreensível. Quem não gostaria de ter um detector de mentiras ou um scanner de reais intenções implantado como um microchip no globo ocular para identificar rapidamente os “mal feitores” emocionais? E assim poder evitar se decepcionar nos relacionamentos ou poder identificar rapidamente quais conexões são seguras e quais são maléficas?

 

Pois é. Mas não temos. Então temos duas opções: continuar nos protegendo das relações e de todas as pessoas que podem nos machucar ou evoluir da condição somente de lutar ou fugir, ampliando nosso autoconhecimento a fim de não projetarmos no outro nossos medos e desconfianças. Quando inferimos que alguém está nos rejeitando, desqualificando ou sendo hostil, temos uma grande parcela de contribuição para que isto realmente aconteça, por reagirmos de forma complementar, no papel de rejeitado, desqualificado, invisível. Ou ainda por reagirmos de forma defensiva, rejeitando-o ainda mais (ele vai ver!), hostilizando, criando um personagem maldoso para o outro, porque construímos esta hipótese e acreditamos nela. E é no autoconhecimento e na construção gradual do amor próprio que vamos descobrindo que o outro também tem suas dificuldades, seus medos, seus processos de luta e fuga.

 

Sim, há pessoas destrutivas, os tais malfeitores. Não estou querendo colocar todos nós no papel de anjos bondosos e sem más intenções, mas acredito que amplificamos, e muito, a sombra do que pode vir a ser a manifestação do outro.

 

Como resolver? Não há uma única forma ou uma única cura. Viver e se relacionar é um processo de autoconhecimento e de experimentação. Quem estiver mais aberto, chega antes. É verdade que é um processo trabalhoso, gradual, de conscientização e aprendizado com acertos e erros. Porém, viver escondido por trás de grandes e convincentes discursos de que o outro é o responsável por minhas dores e agruras não me parece uma escolha que leve a alguma evolução. Além de afetar impiedosamente a saúde do corpo, as tais somatizações.

 

E é na comunicação madura e confiante consigo mesmo e com o outro que desfazemos em grande parte as sombras das más impressões. Que apagamos os fantasmas das elaborações internas do quanto o outro pode estar com uma coleção de intenções de me atingir, com aquela palavra, com aquela postagem, com aquele comentário, com a ausência ou com aquele silencio.

 

Gosto muito de um texto atribuído a Carl Rogers sobre os problemas que acarretam o não poder ouvir:

“Mas, o que me põe realmente desgostoso comigo é não poder escutar outra pessoa porque já estou, de antemão, tão certo do que ela vai me dizer que não lhe dou ouvido. Só posteriormente verifico não ter prestado atenção senão ao que já decidira que ela ia me dizer. Na verdade, deixei de ouvir. Pior que isso são as vezes em que não posso escutar uma pessoa porque o que está sendo dito constitui ameaça para mim, com risco até de mudar minhas opiniões ou meu comportamento. Ou, pior ainda, quando me descubro a tentar distorcer sua mensagem, a fim de faze-lo dizer o que eu quero que diga, só escutando isso. Coisa um tanto sutil e surpreendente a habilidade que tenho quando faço”.

 

Todos temos nosso lado luz, que é aberto, claro, saudável, e nosso lado sombra, contaminado por suposições, medos, projeções. Trazer o lado sombra à consciência e aprender a fazer as pazes com as próprias limitações são os primeiros passos para o autoconhecimento. Exercitar uma comunicação clara, desarmada e amorosa consigo e com o outro é o início da construção de mais pontes e menos muros.

 

Evite o “eu já sabia… conheço este tipo…” ou pelo menos use com moderação e parcimônia esta sua capacidade. Estenda o pensamento, amplie suas hipóteses sobre o que você não compreendeu ainda, e deixe também um espaço para que o outro coloque o sentimento ou a razão ou a verdade dele. Ou não. As vezes basta respeitar.

Você pode se decepcionar? Sim! Mas isto já acontece, não é verdade? Que tal se arriscar a se surpreender positivamente?

 

Permita a si e ao outro a chance de se mostrar aberto e empático. Num processo colaborativo de convivências mais verdadeiras e fortalecidas.

 

Se não sabe ainda como, procure ajuda. Vivemos numa época repleta de oportunidades de autoconhecimento. As psicoterapias já deixaram há muito tempo de serem estigmatizadas como recurso para quem não é normal. São sim, um recurso para quem se reconhece gestor da própria vida e quer viver melhor, além de oferecer relacionamentos e trocas mais saudáveis do que nossos antepassados tiveram por falta de informação, de recursos, de amor ou de liberdade.

 

Agora posso dizer. Se você leu este artigo até aqui, eu já sabia! você esta em busca de ser melhor com e para você mesmo. Parabéns e Sucesso!

 

Marilea Luckow
Mulher, aprendiz da vida, otimista na maior parte do tempo.
Coach, psicóloga, piscodramatista

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